Espetáculo “Gente de Classe” desembarca no Rio para temporada no Teatro Firjan Sesi

Sob direção de Quitéria Kelly a peça é uma sátira sobre a classe média travando uma batalha moral, religiosa e política em um Brasil que insiste em não se reconhecer

Foto: Annelize Tozetto

A montagem aposta no humor ácido para confrontar gênero, classe e fé em um país à beira de novas rupturas. Em 2040, o condomínio de luxo Nova Canaã já não é apenas o endereço de uma família de classe média: tornou-se a metáfora de um país murado; conforto, discurso e medo convivem sob vigilância privada. É nesse território aparentemente protegido que Gente de Classe, do Grupo Carmin, com direção de Quitéria Kelly, uma das fundadoras do grupo, criado em Natal há mais de vinte anos, projeta um Brasil que parece futuro, mas fala diretamente do presente. O espetáculo estreia no Teatro Firjan Sesi, dia 23 de julho e segue até 23 de agosto.

Inspirada nas leituras do sociólogo potiguar Jessé Souza, a dramaturgia criada por Henrique Fontes, Pablo Capistrano e pela atriz e diretora do espetáculo, Quitéria Kelly, constrói um recorte específico da classe média — urbana, escolarizada, moralmente ansiosa — que pode ser reconhecida em diferentes regiões do país. “Não é de uma ‘ficção científica’ clássica, que tenta antecipar o futuro, mas uma crítica do presente a partir da projeção desse futuro possível”, afirma Quitéria.

No centro da narrativa está uma mãe solo, que cria dois filhos dentro do condomínio blindado Nova Canaã. Ela encarna a contradição entre autonomia e sobrecarga, discurso progressista e prática conservadora. Ao seu redor, personagens majoritariamente femininas ampliam o debate: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o espaço público. “O protagonismo feminino é uma larga tradição na modernidade. Por que não imaginar que a próxima revolução deste século XXI comece e seja liderada por mulheres?”, provoca a diretora.

A encenação tem uma estética assumidamente artificial, limpa e controlada, que reflete um mundo em que as relações humanas passaram a funcionar como um jogo permanente de performance. O cenário, composto por elementos minimalistas e modulares, deixam uma atmosfera “clean”, asséptica e impessoal: tudo parece organizado demais, calculado demais, “como um feed de rede social cuidadosamente editado”, nas palavras da diretora. 

Para Quitéria, a ideia do condomínio e da casa funcionam como metáfora de uma sociedade obcecada por sucesso, perfeição, status, engajamento e pertencimento: um espaço aparentemente perfeito, mas frágil. “Existe sempre uma sensação de vazio e instabilidade”, diz. 

A encenação se distancia da realidade analógica, com o uso de projeções mapeadas. Esse recurso amplia a sensação de gamificação das relações pessoais, em que tudo é medido por números, likes, rankings, barras de progresso, desafios e recompensas. 

Criada antes da pandemia, a peça foi retomada em 2024, quando o grupo Carmin percebeu que as tensões que a motivaram permaneciam ativas. “A surpresa é que, a despeito de estarmos com um governo mais democrático, os temas e as questões levantadas continuavam vivos na sociedade brasileira”, afirma Quitéria Kelly. O conteúdo político, aqui, é assumidamente mais explícito.

Ficha Técnica
Direção: Quitéria Kelly
Dramaturgia: Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Quitéria Kelly
Elenco: Rafa Guedes, Thuyza Fagundes e Carol Cantídio / Quitéria Kelly
Direção de Movimento: Ana Cláudia Viana
Trilha Sonora: Ian Medeiros
Design de Luz: David Costa
Videomaker: Taline Freitas e Mylena Sousa
Animação: Juliano Barreto
Cenografia: Manar Zind
Figurino: Virginia Borges
Produção: Grupo Carmin e Corpo Rastreado
Assistência de Produção: Rafa Guedes e Lanuk Nagibson
Assistente de Palco: Venâncio CruzComunicação Visual: Gabi Mati e (Estúdio Rima)
Sonoplasta: Ian Medeiros
Projeção Mapeada: Gabi Mati
Costureiras: Valquíria Rosa e Célia Lucena

Serviço
Gente de Classe
Teatro Firjan SESI
Av. Graça Aranha, 01 – Centro 
De 23 de julho a 23 de agosto
Quintas e sextas às 19h, sábados e domingos às 17h
Ingressos à venda na plataforma Sympla e na bilheteria do Teatro. 

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